15 maio 2012

o rock acertou

No Facebook vejo algumas manifestações aqui e ali do anti-rock'n'roll, normalmente feita por pessoas que tem por predileção o funk e a música de cunho social/sexual das comunidades.

A princípio isso surge como irracional e primário, vindo de um Brasil consolidado antropofagicamente, não há razão para escolher lados.

Por outro lado, o rock como manifestação social e sexual que foi (e não é mais com a força que já foi por ter sido assimilado) está dentro de todas as nossas músicas, em toda cultura da metade do século passado pra cá. É o velho Jagger, o velho McCartney, o velho Veloso. O funk, o rap, os novos sons de resistência, representam toda essa parcela de pessoas ainda não assimiladas por som nenhum. Nós sabemos quem são, já ouvimos suas canções mais populares que se tornaram grandes sucessos, já os representamos nas novelas e agora estamos ouvindo uma voz dizendo que o rock; aquele lá das Diretas Já, do primeiro Rock in Rio, do punk, não diz mais nada que já não tenha sido dito sobre nós e não sobre eles.

Os estadounidenses desde o fim dos anos 80 já adotadvam o Rap e o R&B como a bola da vez. Quando o Run DMC quebrou a parede do Aerosmith já se mostrava um caminho sem volta mais forte e decisivo do que o Nirvana tirando Michael Jackson do primeiro lugar da Billboard com o Nevermind. Esse fato inclusive já mostra o rock com esse aspecto banal, de ter uma importância nas paradas de sucesso. O Nevermind é resposta do rock a si mesmo, à memória de tudo em que se transformou no fim dos 80: decadente.
Foi o que o Strokes fez no começo da década passada em tom de revival. E aí o rock vira oficialmente uma memória. Pense em qualquer festival de bandas de rock e nos artistas principais de um line up de ponta: memória.

Hoje isso chega ao Brasil, com nossas lembranças mais remotas de rap vindas do meio dos 90: Pensador, Racionais, RZO, Sabotage, Ndee Naldinho, Thaíde e Dj Hum, Hemp, D2, MV Bill e Rappin' Hood - os destaques e primeiros sucessos de massa. Hoje o "rap universitário" de Criolo e Emicida tem ótimas produções. Em breve haverá mais. Em breve haverá Flora Mattos e vozes e rimas femininas e então deve haver uma continuidade no estilo e fusões.

Parece uma solução encontrada pelo rap/hip hop brasileiro para crescer e seguir sem a influência do Gangsta Rap, dos carrões, dos blings e coisa e tal. Embora eu ache Criolo fortíssimo compositor, ainda reconheço nele uma voz que diz e remonta os passos do rap até aqui com um compromisso social que não se perdeu e ele reforça ao lembrar de Dina Dee e Dj Primo (os quais eu nunca ouvi - mas conheço de nome de uma antiga Revista da MTV – e acredito que a maioria das pessoas que ouve Criolo conheça melhor). E Emicida com uma antena e uma sagacidade ímpar que me faz decorar as letras de seu EP “Pra quem já mordeu um cachorro por comida até que eu cheguei longe”. É um primor.

O Rock entra na melhor idade masculino, feminino e plural, mas com uma aposentadoria gorda, filhos mimados e chatos, pagando a conta do analista. Nos lembramos de seus pais negros e de seus primeiros passos (Elvis nos 50), de sua adolescência (os 60 - momento em que o Tropicalismo nos atualizou), a idade adulta (os 70), sua crise de meia idade (os 80), sua crise de Peter Pan (os 90) e agora a 3ª idade. Rock é o samba do mundo: balança mas não cai. Há também os fatores que o levaram a essa posição, o que inclui ligações com a cultura eurudita, sua megalomania e outras “ações afirmativas” (Paah, obrigado amor!).

Quem perdeu esse processo não vai entender mesmo e deve continuar sua cruzada no Facebook sem saber que um já ocupou o lugar do outro, etc. Isso não é colocado em pauta e nem questionado por que as pessoas que gostam de funk não suportam o rock por um possível elitismo. Mas quem ouve rock já sabe admitir o rap, o soul e o r&b simplesmente por que o que vem de fora há anos já incursiona naturalmente por esses meios - estamos falando de pessoas medianas que ainda se ocupam desse tipo de discussão e compartilhamento delas no Facebook e um pouco também do ouvinte mediano que sabe o que é funk e sua importância cultural mas não olha com essa distância para a situação geral.

O funk carioca permanece como alvo mas tem aliados em altas posições (outsiders em geral que são em sua maioria os agitadores culturais de hoje) que dialogam diretamente com seu despudor e sexualidade liberada. De fato, há uma atitude que não se vê mais em canto algum na “nova MPB”, na limpeza impecável e no amor romântico à la séc. XIX de Jeneci, Tulipa e tantos outros. Pergunte a Rodrigo Faour e a toda História Sexual da MPB. Mas isso são outras palavras.

Pedro.
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