05 janeiro 2011

eu sou do tempo

para ler ouvindo: Eu sou do tempo (Rita Lee/Roberto de Carvalho)


Mexendo em coisas antigas no meu quarto: fitas VHS, vinis, K7’s, CD-rooms... Todos esperando um uso que nunca mais vai acontecer dentro dos armários, estantes, perto de memórias e coisas que eu não uso mais.
Antes de continuar, eu quero retificar essas “coisas antigas”. Não são coisas antigas. O nosso conceito de tempo e as inovações que tem nos acostumado com coisas novas demais em pouco tempo. E talvez houve um despreparo para recebê-las também.

Não mais do que 10 ou 15 anos atrás, todos esses itens hoje deixados pra trás eram a fonte de diversão da casa, não saíam das salas, das TVs, das vitrolas de domingo. E por incrível que pareça, era uma boa experiência que eu me sinto sortudo de ter vivido e que desde o fim dos 90 já estava encerrada para a geração que chegava nos anos 2000 (que hoje já tem 12 anos, minha idade na época). Não vou reclamar da modernidade, jamais, porém, havia uma graça nessas formas antigas de se fazer as coisas, algo romântico, uma essência que se perdeu.

Começando pelo vinil, óbvio, minha paixão eterna. Nenhum cd, mp3, deluxe edition consegue superar a experiência de um vinil. Por isso ele voltou/está voltando. É táctil e grandioso, revela detalhes da capa, é bonito de se ter, acaba exigindo do artista que se faça algo bonito pra ser explorado. Tem um lado A e um lado B que podem ser divididos em conceitos diferentes. E o som... Nada melhor do que duas caixas com o som da agulha no sulco.

E o que mais importa é que o momento da música vira apenas o momento da música. Como diz Raul Ramone, se você acha que ouve música ouvindo um mp3 contra o barulho da cidade, desculpe, você usa um fundo musical para o caos. Música requer tempo e uma apreciação digna. Não é só acessório de iPod. Tem trabalho de capa, desvendar o conceito, ler ficha técnica, relacionar composições, lembrar de compositores e fazer ligações. Música é muito.

Comecei pelo vinil por que é óbvio que eu tenho mais argumentos, mas outros perdidos também me fazem falta como o VHS! Não tínhamos muitos VHS em casa por que sempre foi muito caro. E assim como era caro, era chato pra piratear, embora alguns se arriscassem em ligar dois vídeos-cassete um no outro e fazer todo o processo, ainda se encontrava pra vender piratas pelo preço de um DVD original de hoje.

Mas a saudade dos VHS é de outro tipo. Sabe vídeo locadora? Essa lojinha que está quase em extinção com o mundo dos DVDs? Então... Antigamente (de novo o “antigo”!) as locadoras eram portadoras das novidades que a gente não viu no cinema. Um trabalho muito rigoroso que exigia algumas vezes sair de casa na chuva para escolher bons filmes. E havia técnicas: alugar filmes de terça-feira ou quinta-feira, por exemplo, por que todos os lançamentos estariam disponíveis. De sexta e sábado todos os bons filmes já estavam fora. Reservar também era uma boa opção.

Lembro que Titanic tinha uma lista de reserva de 6 páginas na locadora que eu ia. SEIS PÁGINAS FRENTE E VERSO! E tinha umas 10 cópias do filme. Culpa da espera que era para o filme finalmente sair em fita. Algo entre 6 e 7 meses depois dos cinemas.
Eu que fui sortudo, ganhei em VHS duplo original de Titanic no dia do lançamento! VHS duplo para 1 filme. Sem extras e sem o dever de rebobinar depois (ok, disso eu não sinto falta). E foi ele que eu vi mais de 50 vezes até o presente momento.

Depois do vinil e da fita, vem o K7 que também se enquadra em outra categoria de saudade: a saudade do mixtape. Quando a nossa música favorita tocava no rádio, tinha que ter precisão pra gravar certinho. Ou quando íamos gravar pra alguém de K7 pra K7, tinha um cuidado todo especial. Enrolar K7 na caneta Bic pra não gastar pilha do walkman, quem não fez?
São coisas simples que foram parte de uma época. Também não sou radical, achava tudo muito bacana e conforme coisas novas foram surgindo, respeitei o tempo do velho. Com exceção do vinil que é uma experiência gráfica e sonora ainda mais aprimorada que o cd e o MP3, o VHS e K7 não fazem mais sentido hoje. Mas não nego jamais que eles tinham pequenas características bonitas que deixaram saudades.

Eu sou um cara do século passado e da década re-retrasada, do fim dos 80, vou me apegar ao que não foi substituído: jornais e revistas comprados diretamente nas bancas de revistas em papel, livros em papel, teatro e cinema. Ainda não se achou substituto para nenhum desses.

Sou alheio a assinatura de revistas e jornais, gosto de ir até a banca, ver as novidades.
Esse tal de e-book também não me diz nada. Ele lá e eu cá com meus livros empoeirados e lindos. Outra experiência: capa, grifos, anotações pessoais, colocar na estante ou dormir com o livro, marcar página... Não há Kindle que substitua um bom livro de papel.
Teatro é outra experiência que não cabe em mídia e nunca será desfeito. Só existe naquele momento que é feito.

E cinema, bem... É cinema! Home theater, cinema em casa é um paliativo, uma cerveja sem álcool. Cinema é um programa completo que também requer algum movimento pessoal desde a escolha até o pós-filme.

cd-r não é e nem nunca vai ser o mesmo cuidado daquele mixtape por que o cd-r pode ser apagado. Mas será que ao menos é pensado com o mesmo cuidado?
O problema não é a tecnologia, somos nós, exigindo menos do melhor que podemos fazer. E cuidando menos do potencial, tendo menos cuidado com a produção, simplesmente por que é só “fazer outro” que pode dar certo. Uma música, um livro, um texto. Acabou o "only shot" e com isso o esmero também se foi. Disso eu sinto falta, com todo direito de sentir.

Pense nisso e relacione com a próxima foto que for tirar.

Pedro.
x