04 dezembro 2010

cantar é vestir-se com a voz que se tem

para ler ouvindo: Cantar (Teresa Cristina)


No país das grandes cantoras, querer ser cantor é tarefa árdua. Sinto muita falta de bons intérpretes masculinos no Brasil, embora saiba que tivemos um passado excelente, o presente não é promissor e o futuro não aponta grandes surpresas.

Se formos pesquisar a época do rádio veremos muitos grandes intérpretes, os grandes cantores da época do rádio divulgaram o cancioneiro nacional e ensinaram (assim como as cantoras) um tipo de canto que não se ouve mais. Vozes limpas, seguras, fortes. Talvez também seja retrato de uma época onde o próprio homem se afirmava como uma figura mais segura, grave, precisa.

Basicamente se ouvia aulas de canto através do rádio. E a formação foi de alunos e alunas excelentes: Elis, Gal, Caetano, Milton e outros.

Após os anos 50 houve um declínio. Com a chegada da Bossa Nova e o canto cool de João Gilberto, alguma coisa mudou. Um grande nome permaneceu: Cauby. Porém ainda pudemos acompanhar alguns nomes fundamentais para o canto masculino do Brasil: Simonal e MPB-4 nos 60, Ney Matogrosso e Emílio Santiago nos 70.

Após o ostracismo de Simonal, Ney se firmou por muitos anos como o grande intérprete de MPB. Apesar de Caetano, Milton e Gil serem grandes vozes, apenas Ney se mantém como intérprete de canções e não como compositor.

Por sua grande expressividade, seu timbre único e sua postura ousada, Ney hoje tem um status elevado, uma grande liberdade e uma estrutura invejável. Por se manter na ativa e lançar projetos atuais, vê-se algum paralelo de Ney em Bethânia, ambos gigantes de disco e palco.

Ney é excelente, Emílio também (tive pouco contato com sua obra, mas seu último disco me dá segurança para tal afirmação). Pedro Mariano é um caso de amor de alguns e ódio de outros.

Mas aonde estão as grandes vozes masculinas do Brasil?

Além da falta de grandes intérpretes, quando surge um é aquele horror, aquela aberração que é o Rick Vallen que eu desconsidero. Desconsiderem também pra gente poder estipular um nível pra conversa. Nem Rick Vallen e nem Edson Cordeiro, por favor.

Atualmente mesmo os cantores-compositores me soam com voz de meninos colegiais. Um misto de voz doce, agradável, sutil, mas que às vezes não da a densidade que suas prórpias canções pedem. Meninos, acordem!

Edu Krieger, Marcelo Jeneci, Moreno Veloso, Kassin, Domenico, os meninos do Doces Cariocas, Rodrigo Maranhão, Thiago Petit. Precisamos de mais Amarantes, aquele vocalista do Móveis que é fantástico, o Lirinha do Cordel, Pedro Luís.

Parece que não se interpreta mais as canções. O último disco de Krieger é excelente por que ele parece liberar alguma emoção nele, como quem diz algo acreditando no que diz, sentindo. Marcelo Jeneci tem uma voz e demonstra quando quer também. Curumin acaba funcionando como um meio termo pra tudo isso.

Precisamos da segurança de um Lenine, um Arnaldo, um Brown, de um Tim Maia (peloamordedeus!) na hora de cantar. Ou fica essa coisa assustada, distante, garotos quase uma vítima de bullyng colegial. Não se ouve mais vibrato de homem. Saibam que em algum camarim do bar Brahma Cauby chora até ficar com dó de si sabendo disso.

Meninos, em fila! Hora de reouvir tudo de Orlando Silva pra começar, os clássicos de Francisco Alves e muito de Sílvio Caldas e Nelson Gonçalves pra se perceber com quantas cordas se faz uma garganta e quantas dores de amores são necessárias pra fazer o coração cantar. E com fé encontraremos um intérprete que fará voltar uma voz do Brasil sendo apenas a voz.

Pedro.
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