28 novembro 2010

nada é pior do que tudo

para ler ouvindo: Unprodigal daughter (Alanis Morissette)


Que hora feliz essa na madrugada de mexer e velhos cadernos de um fundo de estante, pensar em uma ou duas palavras de mote pra começar e quase engasgar com pensamentos. Fico estático aqui esperando o tráfego de idéias se resolver e eu poder começar. Posso seguir?

Claro que se há brainstorm é devido a uma leve ausência que sempre surge. Mas eis aqui um retalho fiel de nossa forma mais bonita: uma madrugada, papéis, pensamentos, lembranças, desejos, intuições, distância geográfica e proximidade de afeto. Afeto forte.

É como ouvir um disco favorito ou sonhar novamente o mesmo sonho bom.
Uma pilha de material (e imaterial) para o teu encontro. Por onde começamos?

Começamos do ponto onde eu desceria do meu mundo encantado onde eu habito com pássaros que arrumam minha cama e passo a pensar na tua parede de cimento cru e frio onde você está e quando sair será habitada por pessoas quentes e desabrigadas.

Acontece que eu nunca achei que você precisasse de socorro. Quando eu achei você também não precisava e talvez não precise agora.
Eu também não vivo nesse mundo, portanto, estamos quites.

A vida conforme ela é hoje se deu por esforços mútuos e alguns felizes acasos, confesso.

Quando finalmente apareceu o que eu precisava antes de eu desistir em todos os sentidos: no amor, na sorte, na vida. Minha mãe me passou segurança de que eu poderia estudar no Rio quando eu estava preparado para a possibilidade de não poder ir mais. Meu pai decidiu mudar a vida dele e conseqüentemente a nossa, e, por fim, um certo alguém cruzou o meu caminho e me mudou a direção.

Esforços, felizes coincidências e persistências de longo prazo me trouxeram pra cá hoje. Pude me mudar com o coração calmo. E calmo ele permanece. Resultado: me dedico, faço planos e é sempre bom voltar.

Há um encanto nisso, eu sei. Entre eventuais momentos de insegurança, saudade, solidão e alguma carência, há uma grande alegria escrita em negrito no subtexto.

(O melhor de tudo é uma menina daqui que tem uma voz parecida e uma risada IGUAL a sua! E é ótimo, por que ela sempre vive chapada, portanto ela vive dando risada!)

Quando eu terminei de ler as suas cartas, lembrei de todas as vezes que me senti no limbo. Uma noite em especial : choppada no velódromo da USP. A vida estava tão perdida que só uma noite mais perdida ainda pra me situar de que nada é pior do que tudo.

Nada - é como a gente se sente quando sai do colégio, do cursinho com todo mundo se encaminhando e a gente se sente perdido.
Tudo - é o que acontece até a gente se achar. E que vai continuar acontecendo – em alguns tempos mais em outros menos.

Te empresto o ditado que minha mãe me disse entre o tudo e o nada, pra usar em momentos como esse: “cada coisa demora o tempo de ficar pronta”. E pense que em tempo você estará pronta. Assim como o mundo que você espera. Assim como as casas que você constrói.

Outra coisa importante que eu poderia buscar em outro texto mas preciso te dizer nesse e você precisa acreditar é que metas e objetivos são parte da vida mas não são a vida. O tempo de hoje ainda é a meta. Ele é o tudo.

Te vendo distante hoje em dia. Nos vemos pouco. Mas o que você me escreveu foi bom pra saber que nossa distância é tempo pra percorrer caminhos de volta e nos encontrar de novo.
me pergunto se uma fuga aparecesse na sua frente, você usaria mesmo?

Te deixaria feliz saber o que vai acontecer?
Te deixa infeliz o que está acontecendo?
Ser uma das meninas?
Ter tudo certinho, prescrito e carimbado?
É isso mesmo?

Não, essa não é uma carta de resposta. É uma carta-resposta que me deixou (e vai te deixar) com mais perguntas, se perguntas você quiser. Por que eu acho que você precisa delas. Eu acho que você precisa de tudo pra se encontrar diversas vezes e se desencontrar e se encontrar e...

Thay, você é o carvão que a gente bota na pressão e não vira diamante.
A gente tem que aprender que seu lance é a brasa.

Até breve, até sempre.

Pedro.
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