04 agosto 2010

que o menino de olho esperto saiba ver tudo

para ler ouvindo: Um dia (Caetano Veloso)


Minutos antes de entrar no ônibus eu entendi tudo. As palavras vieram como um raio na minha cabeça, mas, vagarosamente, foram letra por letra, criando sentido, recriando imagens e momentos até chegar a hora em que todas faziam sentido para o momento: Ritual de passagem.

Essas palavras faziam mais sentido cada vez que eu pensava nelas. Tudo o que eu havia pensado até então estava apagando. Afinal, é isso que significa tudo.
O ônibus que me levaria para Rio das Ostras não me despediria de casa por muito tempo, apenas por alguns dias até o feriado mais próximo. Mas não é bem assim que funciona. Na verdade ele nunca mais me traria de volta.

Na volta desse ônibus se espera outro garoto, outra pessoa. Um garoto que mora sozinho, cozinha, lava e passa sua própria roupa, não depende da mãe pra acordar pra faculdade, tem que se cuidar sozinho se ficar doente... E que pretende ser assim daqui em diante. É isso que o Rio de Janeiro, a faculdade, o amadurecimento, a distância, tudo isso representava aquele ônibus amarelo escrito “São Paulo - Rio das Ostras”, um momento sem volta.

Não vou dizer que não senti medo. Pelo contrário, foi bastante. Quando a gente vê de longe a idéia é tão boa: morar sozinho num paraíso cheio de praias, gente nova, idéias novas... Mas de perto é bem diferente. Quando foi chegando perto eu questionei o porquê de tudo isso se as coisas antigas são tão familiares e confortáveis. “Pra que ficar longe da minha irmã? Blah! Que nada, não quero mais ir, vou ficar.” Mas eram 19:10 e o ônibus saía da rodoviária às 19:30. Um pouco tarde pra mudar de idéia.

Conforme o tempo ia chegando, a ansiedade ia aumentando, o peso da responsabilidade ia ficando mais e mais difícil de carregar. Mas eu agüentei numa boa, morrendo de vontade de chorar e ficar bem exposto, nivelado ao peso do momento, mas não o fiz (isso depois me custou dois dias com a garganta trancada, como se eu tivesse engolido uma noz inteira e ela me atravessasse a garganta). Entrei no ônibus e escrevi uma mensagem de texto conforme ia vendo a Marginal passar. Terminei de escrever, enviei e deixei o celular na bolsa. Dormi.

Foi um milagre ter dormido. Foi mais uma fuga do que um milagre, mas tudo bem. Sei que eu acordei vinte minutos antes do momento de descer. É quando essa história termina e outra começa às 5 da manhã num ponto de ônibus de uma cidade do interior.

Sozinho.

Pedro.
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