Quando eu era menor, adorava a noite e a madrugada. Gostava do dia também, mas me irritava com sua previsibilidade, como até hoje (desobedecendo Elisa Lucinda) me irrito com a rotina.
O dia tem o sol e as pessoas acordadas por que tem que ser assim, alguém disse que tem e é. Desde pequeno eu questiono quem definiu isso e por que tem que ser seguido, até entender por que dependemos do dia. Mas esse fato fez/faz com que o dia não guarde mistério algum.
Desde muito cedo também eu acordo de madrugada. Aprendi a andar pela casa escura com as luzes todas apagadas sem emitir um som. Diversão só minha, ficar no meio da sala no breu imaginando o mundo e ouvindo ruídos-sinais, vidros, vizinhos e mistérios. Principalmente mistérios.
Até que um dia eu vi um filme de terror e não consegui mais dormir. Passei a noite no escuro e com a mente em claro deixando minha imaginação de pisciano tomar conta.
Imaginei que houvesse um lugar onde pessoas que assistissem filmes de terror e tivessem medo de dormir se encontrassem. Que fosse um lugar claro. Também me prometi que quando crescesse eu seria dono de todas as noites que pudesse e não teria medo de coisa alguma, se ainda houvesse algo a temer.
Eu lembro de cada segundo dessa noite.
Dos 13 aos 16 eu descobri mais a liberdade da noite em casa. Comecei a pensar que não devia ser o único que gosta de desobedecer a lei que alguém criou, afinal, entre tantos, será que só eu desobedeço o dia?
Dos 17 aos 20, nos bares, nas ruas, nas festas, nos apartamentos e tive certeza que muitos devem ter prometido domar suas noites e desobedecer a ordem de que só se vive de dia.
Enquanto estou só trabalhando, me dedico com afinco a descobrir que nem todas as noites são iguais. Mas mesmo o mais claro dos lugares ainda guarda seu canto escuro e vice e versa.
Viver todas as noites como as últimas e descobri-las, foi como eu sempre quis desde criança. Se eu não for, morro de curiosidade. Afinal, como terá sido a festa de formatura da minha irmã? Eu guardo todas as noites que não estive e as uso a meu favor.
Incrivelmente, depois de tantas noite (e por mais que eu sonhasse, nunca supus viver a vontade de criança de forma tão real) sempre parece a primeira.
A cada passo, a cada abraço, a cada dança, a cada lua.
Pra Tati.
Pedro.
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07 Junho 2009
e a noite faz-se dia no meu coração
Postado por
PedroPeter
às
6:56 PM




