27 janeiro 2008

o que acontece aí no sei litoral



Viagem simples e de poucos dias à praia. Descendo a serra, toda aquela expectativa, aquela sede pisciânica de mar. Talvez agora eu tente explicar minha ligação com o mar, ou melhor, na próxima, aqui fica só o relato da pequena trip que explica o porque do blog desatualizado.

Lá fomos nós: rádio, criança, ansiedade, revista no ônibus e travesseiro pra viagem já que eu não tinha dormido nada na noite anterior, rezava por um super trânsito na estrada que não aconteceu - é claro - afinal, quando a gente precisa... Não rolou o transito, portanto o sono ficou pra depois também. Mas a viagem foi rápida, ainda era possível dormir cedo.

A casa gigantesca para um público idem, como toda casa de praia, cheia dos seus beliches, com eletrodomésticos detonados pelo sal, quente e cheia de insetos.
Uma beleza de lugar!
Ironia à parte, depois de uma varrida, ficou boa a situação da casa, até reparei na churrasqueira que tinha do lado de fora...

A praia estava linda de cinza no segundo dia. Quente, insuportavelmente quente.
Se estivesse com sol não faria tanto calor quanto fez com o mormaço. Seria mais bonito (como foi no dia seguinte), mas não mais caloroso que aquilo.
Não posso falar do mar, não quero, e não pretendo deixar que ele fique tão entre assuntos diversos, quando ele merece algo mais exclusivo, minhas memórias do mar. Qualquer um deles... Por enquanto é só sobre mar.

À noite rolou uma brisa, uma filosofia meio vã para aqueles que (como eu) tinham dormido a tarde toda e perderam o sono noturno. Não tinha um violão, portanto esse foi nosso luau improvisado. Melhor do que muitos, garanto.

No último dia o sol também saiu, o rei da situação. E com ele mais fotos poser, mais vendedores, crianças na beira da praia e pessoas começando 2008 cada vez mais sujeitas ao câncer de pele, ou seja, o mesmo do mesmo de sempre. Ultimamente eu vejo mais proteção, o que é bom, menos risco de câncer de pele, mais pessoas acordando pra vida!
Enquanto no sentido literal, eu me encostava em qualquer canto e dormia. Culpa das duas semanas de zumbi que foram essas duas últimas, resolvi descontar na falta do que fazer que ir à praia já implica: quando não estamos na praia não há nada pra fazer. E não sou eu quem vai procurar, vão vocês que eu vou deitar um pouco na redezzzzzzzzzzzzzzzzzz.

No mais, foi isso. Fiquei com um remorso-culpa de ter deixado São Paulo e ter passado o aniversário da cidade fora. Mas ano que vem tento compensar este ano.
Prometo Sampa. E até que não vai ser um grande problema, sendo que nós ainda teremos um grande ano juntos pela frente, não é?








Pedro.
x

21 janeiro 2008

sexo heterodoxo, lapsos de desejo

(prólogo)

transparente, arredia
conseqüente arrepio,
afluente do meu rio

amasiada,
eu diria demasiada sempre.
demasiadamente linda sempre.

por isso eu gosto, amo, telefono.
ela me leva pra festa e testa meu sexo com ar de professora,
por que é minha fêmea alpha.
mais demasiadamente bonita e minha sob o sol.
vai entender...

não largo mais.
e acho que nem ela de mim.

todo resto é história.





(epílogo)

você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
ter loucura por uma mulher...
você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
e por ela quase morrer...

é nessa linha assim. nervos de aço.

demasiado eu.
por ela.

Pedro.
x

20 janeiro 2008

quando vejo o céu desaba sobre nós

Rua Augusta. Terça, quarta ou sexta feira, quem vai dizer quando foi que eu me perdi de novo por lá? Tempo de férias e eu estou me aprofundando na arte do bilhar. Vira e mexe vem um papo novo, um conto, ninguém com algo que eu realmente queira ouvir.
As pessoas são legais. Procuram coisas, procuram saber das coisas e explicam tudo muito bem. Mas ao mesmo tempo é tão vazio...

De uns tempos pra cá eu vejo a high-society-indie-circulante um pouco apagada. Não há nada que prenda ninguém a nada, não tem uma escolha que seja um pouco diferente...
No fundo todos estão ficando muito parecidos. Pessoas que adoram música e não entendem de música, querem criar arte e não estudam arte,
e assim mesmo com o cinema, com a dança, com a política e com tudo mais. Mas são pessoas legais de se conhecer assim: jogando bilhar e conversa fora, e tem aquela impressão de que todo mundo se conhece... É muito confortável. É praticamente o Rio de Janeiro.

Enquanto na Consolação, um pessoal colava cartazes com os ditos “Teatro não é mercadoria”. Raiva. O que essas pessoas devem saber sobre teatro? Mais raiva. O que sabem sobre mercadorias? Na Internet eu vi que eles eram mais inteligentes que eu poderia supor, pois na verdade “Teatro não é mercadoria” na verdade é o nome de uma peça. Então nada mais óbvio que utilizá-lo como um merchandising de primeira. Pessoas inteligentes. Ainda colocaram (não sei se de propósito) a sigla “TM” no outdoor, que me fez pensar que era algo relacionado ao Teatro Mágico que eu acho tão fraco. Super raiva. Mas depois passou e ficou a alegria pela inteligência.

Agora que eu sei que algo foi aprendido (marketing), falta a rua Augusta aprender mais sobre ambição, coexistência e até sobre a grana.

Rua Augusta. Segunda, quinta, sábado, novamente perdido por lá com pessoas que eu espero manter por muito tempo.
Não apenas algo superficial, amizade mesmo, como é agora enquanto a gente reforça laços.

Mas voltando a rua Augusta, queria dizer a ela que apesar de ser muito vaidosa e um tanto fraca de conteúdo, ela é um ótimo passatempo, tem um ótimo papo... Nos distrai quando nada mais nos distrai quando nada mais nos distrai. Pode não nos fazer dançar (e é verdade: ninguém dança!), mas toca boas canções, é rock’n’roll e ultimamente tem me parecido com samba e com o Rio e Janeiro, fato que me fez feliz por demais. Falta tirar um pouco do lixo circulante da rua, os destoantes, os imbecis, os quadradões... Mas algum progresso já está sendo feito quanto a isso também.

E é isso, o que eu tenho mais pra dizer? Passar por lá me faz lembrar o São Luis, o etapa, a casa do Lu, a sede e as danças em cima da mesa de sinuca (numa fase em que eu nem me interessava em aprender a jogar). Me lembra o show das Impostora no Inferno, a primeira balada no Outs quando o Gui levou eu e o Rudy. E nessa época, o Outs era alguma coisa, juro que era. A Augusta me lembra muito o Rudy, me lembra muito o Matheus e a Déia... To deixando a Igi por último só pra ela pensar que não está na lista, como ela disse: para atravessar é só de drink em drink.

Meus amigos são um barato. E a rua também. E com um pouco de tempo eles vão ficando reais e com profundidade.

Pedro
x

13 janeiro 2008

amando noites afora

“Amadores” é uma série com 3 textos que eu escrevi no segundo semestre de 2007 sobre pessoas que eu precisava escrever sobre. Na época não foi muito apropriado publicá-los, por ainda ter convivência diária com essas pessoas, por não gostar muito das minhas próprias críticas em relação a elas. Mas não vejo como não publicá-los hoje, quando os textos parecem mera descrição, que continua valendo até hoje (por isso à vontade de publicar esses textos agora).
Quanto ao "estar à vontade" para publicar agora, veio simplesmente por gostar demais desses textos para esquecê-los.
E apesar de não dizer o nome delas (como costumo fazer nos meus textos sobre pessoas), para quem conhece fica muito fácil saber quem são.

amando noites afora parte 2

Amadores parte 1

Ele não é mais aquilo tudo. Soa forçado demais, acabou perdendo aquela densidade que lhe era natural. Hoje não difere doa muitos outros, também tão inteligentes e interessantes quanto.

Perdeu o charme espontâneo, aquele que vinha com uma risada vinda de um comentário, de uma ironia bem colocada.
Hoje ri de qualquer besteira. Não sei se é só pra fazer média ou se realmente sempre foi mais um desses que ri de besteiras.
E eu ainda sou crítico e extremista nesse ponto:
“Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada”
Tem sido difícil...

Como a desgraça adora companhia existem culpados por esse declínio. O primeiro é o caso mais perdido (ou quase isso) que eu já conheci. O segundo, trabalha hora como cúmplice, hora como intermediário para que os três virem um possível grupo isolado.
E ele no meio disso! É quase triste, quase “O mundo dá voltas” (aquela música do CPM22)

Mas o pior é perder o bom humor, perder as chances de brincar daquilo que se quer ser na imitação da vida. Usando o cinema, a música. Provocando mesmo pelo deboche, pelo paradoxo, pelo desbunde. Por todas as implicações que a provocação traz.
Mas não, ele agora quer o óbvio. Vive de censuras, mesmices, obviedades, “nãos”.
Eu ainda o primeiro, o mais leve e o mais eu:
“Brinco entre o que deve e o que não deve ser”

Mas entre nós aqui: faz parte do show dele. Tudo isso.
Tudo dele, nada jogo?
E até que o danado joga bem.
Perto de mim, quando eu ainda jogava esses jogos, seria um amador.
Mas quem não seria?

Pedro.
x

E mesmo enquanto não estou na partida, ele é um amador.

“Vaca Profana” (Caetano Veloso)
“Diamante Verdadeiro” (Caetano Veloso)

amando noites afora parte 3

Amadores parte 2

O que se passa com ela eu não sei bem descrever. Mas pra eu tentar explicar melhor e estabelecer um termo pra comparação, digo que funciona como ondas: num momento estão fracas por conta da maré baixa, mas logo depois são ondas de ressaca.
Como eu sou um menino do mar, não gosto de maré baixa, mar manso e desinteressante. Essas coisas não estão comigo quase nunca. E mar de ressaca causa ressaca, coisa infernal (o que é diferente de ser tentador, instigante). Falta ser onda de praia do Farol da Barra, aquele mar de desassossego que volta e meia traz ondas e colares de presente.

Independente disso eu estou por ali e sempre ali. Afinal é ela e sempre ela.
Mesmo que ultimamente ela tenha começado a fazer/jogar um jogo no qual ela não é boa. E tenta/faz uma provocação muito boa, mas que (infelizmente) ela ainda não tem a malícia nem a maldade necessária pra provocar e nem pra entender.
Palavra de quem já caiu nessa.

“Pra que mentir,
se tu ainda não tens esse dom de saber, de iludir
(...)
pra que mentir
se tu ainda não tens a malicia de toda mulher
pra que mentir
se eu sei que gostas de outro que te diz
que não te quer”

Não é apenas isso. Não pode ser apenas o que propõe a letra de Noel.
Ela tem a poesia guardada, tem o amor. E eu a amo, ora pela essência, ora pelo excesso. Pouco pelos erros, um pouco menos pela invenção de jogo que ela quis jogar, total pelo sublime lado do ser. E esse lado sublime é o que ela domina, eu já disse a ela que com isso ela pode fazer as pessoas dançarem a valsa dela.
Não vou me contradizer, ela tem total direito de (como eu) brincar entre o que quer e o que não quer que o mundo seja.
Eu só opino aqui e ali para que ela faça tudo direitinho e não se machuque.
E tomo conta do que é meu, mesmo quando não é.
Ela não joga, mas joga quase tão bem como ele.

Amadores...

Pedro.
x

“Pra que mentir” (Noel Rosa / Vadico)

amando noites afora parte 4

Amadores parte 3

“Era uma vez eu no meio da vida
Essa coisa assim
Tanto mar, tanto mar
Coisa de doce e de sal
Essa vida assim
Tanto mar, tanto mar“

Mania de quem acha que sabe.
De que vê porque sabe o que vê.
“Aquele que conhece o jogo, o jogo das coisas que são” .
Não sei porque mas o passado tem parte enorme de culpa nisso, ele foi o primeiro a gritar:
- abre os olhos!
Ali tudo foi muito cedo. Muitas etapas foram puladas, outras eu fui saber recentemente que existiam. Tudo foi cedo.
E eu acabei cansando muito cedo também. É o preço.
Desconfiança, inimizade, trapaça. Esse boneco tem manual.
Sabe que eu também tenho insegurança... Às vezes parece um poço lotado.

“Contigo aprendi
A perder e achar graça
Pagar e não dar importância
Contigo a trapaça
Por trás da trapaça
É pura elegância
Se deres por falta
Do teu riso esperto
Dos teus sortilégios
Entende e perdoa
Eu ando nas ruas
Com o sol descolado
Da tua pessoa”

Quem cantaria pra mim? Não sei. Eu sei que nessa onda eu vim por acaso e me aproveitei. Não tenho do que reclamar, poderia ser vítima, mas aprendi com quem nasceu pronto pro ofício de ser ego, de ser o melhor do lado mal. E isso explica muito, ou quase tudo. Rodrigues Alves... Quem diria que seria o antro, a cúpula, a matriz.
Porque eu também sou um amador, mas aprendi com os profissionais.
É, isso é tudo mesmo.

Pedro.
x

"Força estranha" (Caetano Veloso)
"Maravida" (Gonzaguinha)
"Trapaças" (Chico Buarque)

09 janeiro 2008

somos tão jovens?

Sabe a fase Legião? Aquela que todo mundo tem? Eu nunca tive.
É a minha maior glória ter atravessado anos a fio sem nem sequer tentar decorar “Faroeste Caboclo” (...pra que meu Deus?).
Claro que eu precisava ser assim, afinal, detesto quando endeusam alguém que não é tudo isso o que dizem pelas redondezas. Mas tenho que admitir que o cara às vezes tem umas saídas geniais. E eu entendo o endeusamento do Renato.
Ele fala com uma propriedade, ele mira um publico. O único público que vai entender o que ele diz, por mais novo que seja.

Escutar algumas canções dele e ter uma possível identificação me faz ser igual a um garoto de 1984 que mora em Brasília e não tem nada pra fazer, a não ser curtir aquele tédio (com um T bem grande pra você, como dizia a canção do Aborto Elétrico).
Não que seja tedioso por aqui, mas ao mesmo tempo é uma situação complicada não ter um alvo pra mirar. Não ter um objetivo, nada pra saber? E é esse o publico alvo das canções dele.E também o próprio objetivo dessas: dar algo pra que os jovens pensem, algo útil com uma linguagem mais próxima.

Não me espanta que todas elas tenham atravessado gerações. Duas no mínimo e rumo à terceira. O que assusta é o sentimento mútuo que todos atravessamos, independente da época.
Aquele papo: todo mundo já foi adolescente mas esquece, já ouviu isso antes?
É balela.
Ninguém esquece.
Mas não se preocupam em fazer muito esforço pra lembrar, seria o ressentimento?
A dor? O prazer? O que não volta mais?
(Me lembrem de responder o motivo disso quando eu estiver na meia idade com filhos que eu não entender).

Não sei responder, acho que ninguém vai saber algum dia. Mas não me inveja a certeza de que os adultos têm algo pra lembrar, mas me inveja o fato de eles terem mais direito ao novo. Hoje nada é novo ou puro. Tudo tem uma data pra chegar, tudo tem informação que vaza pela Internet, tudo se move, tudo é um prazo.
E também ninguém mais tem aquela utopia, aquela besteira de brincar de entender o mundo na cuca. Eu que sou o pisciano mais pisciano da região tenho tido um pé no chão danado ultimamente. E eu não quero ideologias e passeatas essas coisas...Não espero os novos hippies. Eu quero ver mais (como vi recentemente) gente mais viajada, mais “unplugged” desse mundo, com tempo para seu próprio tempo.
“Temos nosso próprio tempo”. Acredito nisso, mas não vejo. Difícil equação.

O que me falta hoje é só objetivo? Ou é algo que realmente não pode ser objetivo (por não poder ser alcançado)? Queria que as pessoas, os jovens, de hoje tivessem mais unidade, se unissem mais, não no sentido bobalhão-propaganda-de-seguros, mas que tivessem um plano conjunto. Não um protesto, não um manifesto, mas um plano.
E também tivessem mais cultura e mais entendimento do mundo porque irrita muito botar tudo na culpa do tio Sam e do capitalismo. Queria muita coisa... Pra todos, mas parece que daqui pra frente às coisas vão ladeira abaixo, tudo indica, desejo sorte aos que virão!

Pra falar a verdade, do mesmo jeito que eu tenho isso com a adolescência dos mais velhos, as crianças também teriam da minha infância.
Por isso eu digo parece que está sempre piorando pra todo mundo, quando não está (também não sei ser pessimista!).
Ainda bem que (por enquanto) ainda estou pegando alguns acontecimentos antes do fim.
O mundo não acabou e ainda não é chato.



Pedro.
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05 janeiro 2008

abstrações de 28 de Maio - off blog

Eu realmente estou animado. Especialmente se você estiver com vontade, mais ainda se me disser qual a tua vontade.
E se disser que limites foram feitos para limitados com aquela cara de quem quer multidão, eu te respondo que tanto faz ou tanto fez, pra quem vem ou pra quem vai e já está tudo ferrado mesmo. A essa altura do campeonato o que nos resta são os antigos exageros e os novos vícios.

Quando a gente começa a se acabar, você percebe que eu estou aqui para que me animem.

*

Enquanto a noite vai, eu troco meu “acontece” do MSN por um “shit happens” do scrap que eu te deixo no orkut.
E você entende bem (entenderia melhor se eu cantasse) a letra que eu fiz pra você. E não faz promessas que não pode cumprir.

*

Desse jeito eu nunca me canso de escrever.
Assim mesmo, pra ninguém, pra você.
Sobre nós dois e o resto do mundo.
Como se eu pudesse olhar tudo de longe, ouvir as pessoas falarem e saber que é bobagem.
Mesmo sendo tão complicado ouvir enquanto você respira, enquanto fala mais bobagens, só que dessa vez está tão perto. Vale a pena ouvir...
No fim, isso compensa tudo.

Pedro.
x

Quer saber da maior?
Isso foi e era e é e será assim.

01 janeiro 2008

lua de subúrbio

A vida às vezes pode ser muito engraçada. Outras vezes pode ser irônica, sarcástica, sádica. Como saber o que é sinal e o que é simplesmente “filhadaputice” da vida? Eu tive esse insight justo durante o meu ano novo, enquanto tudo corria muito bem, obrigado, e eu não precisava me preocupar com nada.
Já tinha feito alguns pensamentos bacanas, promessas que eu posso cumprir de verdade... Estava tudo bem em casa, eu estava na Paulista me divertindo um tanto, quando vem aquele maldito momento em que pessoas que eu enterrei voltam pra me assombrar (por isso eu os apelidei de “ghosts”).

Odeio quando eles aparecem com aquelas caras de familiaridade e aqueles esqueletos, falando daquele jeito como quem tenta provar algo não sei pra quem. Não são todos ghosts, tenho amigos que adoro até hoje, mas esses a gente mantém contato, deixo-os vivos e continuo gostando. Mas uma vez que se torna ghost, não há o que faça uma pessoa renascer das cinzas.

Pois bem, de volta ao ano novo. Resolvemos ir pra Rua Augusta passar no bar Pescador aonde um amigo nosso trabalha.
E eu continuei me divertindo um tanto e entretendo a todos como anfitrião semi-oficial do reveillon no meu canto da avenida Paulista, quando os ghosts chegaram. Que sensação horrível apenas pela amarga presença dessas pessoas, parecia que alguém tinha mandado acabarem com a minha festa.
Vida irônica, sarcástica e malvada!

Na hora eu não consegui perceber que talvez fosse uma possível lição de como aceitar melhor que as coisas acabam e eventualmente a gente vai ficando estranho um pro outro, desfaz os laços, esquece quanta coisa tinha em comum (essa história de fim de São Luis ainda está um pouco apavorante pra mim).
São coisas que acontecem com o tempo. Mas na hora eu (obviamente) não estava conseguindo ver por esse lado, então eu me apoiei em um amigo que tinha feito na hora, um paraguaio chamado Johnny Walker e aí as coisas foram ficando mais e mais divertidas, mas não num bom sentido, não sem culpa.

Aliás pra ser sincero não era nem diversão. Era esquecimento.
Eu precisava esquecer os rostos, as manias, as escolhas, tudo aquilo que significou a amizade, o passado. Talvez não quisesse ter que escrever o que eu estou escrevendo agora, talvez eu não quisesse perceber...

Talvez, talvez, talvez...

Fico pensando em como conheci essas pessoas e como foi significativo, como costumavam me cativar. E como eu também pensei por muito tempo que nada mais daria certo fora daquele círculo de amizades.
O que acontece quando a gente sente que não vai mais usar isso?
O sentimento vai pra onde? Ou ele só muda de lugar?

Assim como existem muitos “talvez” existem muitas perguntas quando é esse o assunto. Existe muita mágoa também.

Nem tudo foi como a gente esperava. E eu me considero com muita sorte por ainda ter muitas expectativas em relação a mim.
Mas nem todo mundo consegue o que quer, nem todo mundo continua estudando, nem todo mundo consegue ter uma perspectiva.
E isso acabou virando um grande problema meu na Rua Augusta às duas da manhã.

Sabem de uma coisa... Um compositor escreveu uma vez que o inferno é a recordação. E eu concordo com ele.

Pedro.
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(epílogo)
Luas de subúrbio (Guinga e Aldir Blanc)

Nos sonhos do ilhéu
Onde acaba o mar e começa o chão do céu.
Toda tristeza é coisa vã
e não vai durar pois morrer no mar é regressar à mãe.
Quando meu barco naufragou, fui ao paraíso
mas o que eu preciso lá não tinha não
e então eu peguei do remo e pedi ao demo uma explicação.
Ele me fez jurar um segredo eterno:
me contou que o inferno é a recordação.
De um vulcão feito de Vesúvio,
luas de subúrbios explodiram com gladíolos no portão.
Num vão de escada um pobre velho com um realejo
me soprou um beijo na palma da mão
mas quando olhei pro demônio seu jeito tristonho
me fez compreender.
Eu li nos olhos dele:
esse é você...